Minha flor

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Meu amor

Lilypie Kids Birthday tickers

Retalhos de um tempo

>> quinta-feira, 23 de maio de 2013

“Descanso minhas intensidades 
nas palmas das tuas mãos calejadas
pela aridez 
dos sóis que castigam a vida.
É essa a sina
de quem caminha com os pés no chão
e os olhares refletidos de cerrados infinitos.
Levo no corpo todas as curvas
de um rio inteiro percorrido
e sofrido pelas lágrimas vertidas
dos seus olhos inquiridores.
Pois quem é filho da terra
e se comunica livre com o vento
nunca se perde nos redemoinhos
que povoam as mentes não satisfeitas
pelo ritmo frenético dos dias vazios.
Você é sempre o inusitado
da beleza cotidiana
do sol que se põe
atrás daquela montanha
que tantas vezes desenhamos
com as pontas dos nossos dedos.
Você é a centelha das estrelas brincantes
das nossas noites acesas pelo amor.
Anoitecemos amiúde
com o luar incorporado
na tez dos nossos sussurros
enrouquecidos das tantas acrobacias
executadas em uníssono.
Madrugamos encantados
e embalados pela quimera
de que podíamos parar o tempo.
E amanhecemos fatigados e repletos
de ter e reter os nós
de nós dois.
Felizes nós fomos
naquela dimensão que vez por outra
nos abrigava quando fugíamos
do mundo, cúmplices
ao encontro da nossa solidão compartilhada.
Hoje eu aconteço
misturada ao seu vulto.
E você habita intocado
todas as profundezas
da minha cobiça.”

Marisa Dionisio

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A menina que habita em mim


Ando me desapegando pouco a pouco das desnecessidades da vida. O tempo me diz que outras significâncias se fazem prementes. Nas mãos da menina que habita em mim, uma flor, e em seus olhos aquele encantamento ingênuo de quem visita o mundo todo em seu próprio jardim. Nem preciso saber o caminho de volta à minha infância; meus pés descalços conhecem bem as pedras, a poeira da estrada e aquele cheiro de mato que possui toda a singeleza surrupiada no desenrolar dos meus anos vividos. A alegria bagunçada e misturada da casa cheia de irmãos, algumas brigas, comida gostosa de mãe e a presença fundamental de todos que compunham o meu plural. Crescer embaça a fantasia que nos veste quando crianças e tira toda a transparência cristalina das nossas palavras. Somos designados a acreditar menos, quase que desconfiando, e poucas vezes nos permitimos admirar as minimidades maravilhosas que desabrocham do nosso sentir. Ser adulto adoece um pouco nossa capacidade de nos surpreender e superlativa nossas expectativas. Ando desafrouxando os nós apertados da minha garganta e busco unicamente o esplendor que aquece a lamparina da minha essência. Quero voltar ao lugar onde meu mundo cabia inteiro nas páginas do meu conto de fadas preferido. Quero pular as poças de lama que a chuva misturou à terra, gargalhar sem pressa, e ao olhar distraída no reflexo da água, enxergar a mesma menina faceira que interpretou todos os papéis da minha saga pessoal. A menina que desejava apenas um dia inteirinho para ser feliz, subir no pé de manga e vestir suas bonecas com roupinhas de filha. A menina que tinha tanta imaginação, que inventava longas histórias nas páginas coloridas da sua memória. A menina que falava para dentro, em sussurros, com todas as outras meninas que moravam em suas profundezas. Hoje sei que transporto em mim traços emprestados das urgências de ser gente grande. Não sei exatamente o quanto apreendi dessa estranha façanha que é amadurecer. Só sei que preciso sempre consultar minha doce enciclopédia de inocências contidas na minha infância para não me perder na tênue presunção que emoldura a suposta sabedoria. Quero o deleite do não saber contínuo. Sob a pele da minha loba, em constante estado de júbilo, vive minha eterna, lírica e sonhadora menina. 

Marisa Dionisio


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Pé na cozinha

>> quinta-feira, 16 de maio de 2013




Tenho um pé na cozinha. Um não, os dois. A cozinha é sempre aconchego para o meu cansaço. O melhor lugar de uma casa. Com certeza o melhor lugar da minha casa.  Palco de inesquecíveis histórias familiares e relicário de aromáticas memórias afetivas. Cozinha e comida de mãe, afago certeiro no coração. Não é por acaso que sou assídua no ambiente culinário do meu lar. Com minha colher de pau, meu caderno de receitas e uma dose extra de extravagância e imaginação, exerço plenamente minhas prendas gastronômicas. Em minhas panelas tento replicar momentos eternizados no céu do meu paladar. De posse dos meus apetrechos de forno e fogão, brinco então de ser a minha mãe, e vou me lembrando das delícias de nossas conversas na cozinha, nosso santuário de encontros. Misturo lembranças, afetos, ervas e temperos. E assim, embalada pelas recordações desses dias que têm sabor de saudade, construo meu próprio caminho no terreno dos sabores. Vou ensaiando uma dança ritimada de gestos elaborados junto com os ingredientes e minha imaginação. Sigo as receitas, mas dou sempre uma pitada da minha personalidade. Minha performance é uma saborosa mistura de tudo que aprendi com a arriscada cartada do improviso. Porque cozinhar exige feeling, aptidão e muitíssima boa vontade. Sentimento é tudo na hora de preparar um alimento. Na cozinha minha poesia borbulha fumegante enquanto apimento as palavras com originalidade. Cozinhar é uma prece e uma arte também.  É demonstração de amor e é carinho e cafuné no apetite alheio. Receber quem a gente quer bem em uma mesa preparada com capricho é uma linda forma de demonstrar amor. Comida gostosa agrega família, amigos e tece fraternidade. A melhor maneira de reunir pessoas é com uma comidinha feita com as mãos e com o coração também. Ponto. Disso decorre reuniões acaloradas, com muitas risadas e mescladas com regalos que encantam o paladar e satisfazem o apetite. Comida antes de tudo tem que ter charme. Apresentação é a palavra chave. É claro que o sabor é imprescindível, mas dizem que nós comemos primeiro com os olhos, e é verdade. Eu cozinho todos os dias para minha família. E tento fazer disso uma oração diária, pois além de presentear meus amados com uma alimentação saudável e bem feita, estou também ensinando aos meus filhos que cozinhar é uma atividade prazerosa. Venho de uma gama de grandes cozinheiros caseiros. Minhas avós, tias, pai, mãe e irmãos me garantiram o gene certo para a cozinha. E para agregar talentos, ainda me casei com outro grande chef.  E eu que cresci em uma família grande onde toda refeição tinha cárater festivo, perpetuo essa atmosfera em meu próprio lar e faço da minha casa o reduto de encontro dos amigos, familiares e amigos dos meus filhos, assim como sempre foi na casa de meus pais. Sou festeira, festiva e adoro agraciar quem eu amo com belezas comestíveis. Faço poesia com palavras e alimentos.  E sei que estou proporcionando lindas lembranças aos meus pequenos, transmitindo a eles o que eu recebi como herança afetiva. Casa alegre é casa cheia, de gente, barulho, plantas, bichos, bagunça, livros e também de mesa sempre posta com delícias apetitosas. A atividade culinária se ensina principalmente com o exemplo, assim como a leitura, educação e respeito à vida. Receber bem exige carinho, acolhimento e atenção. Eu gosto, e muito. Sempre. E continuo com um pé na cozinha. Um não, os dois.

Marisa Dionisio

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>> quarta-feira, 15 de maio de 2013


"Me desembrulhei de tudo o que me prende a esse peso no coração. Minha tristeza tem prazo de validade. Sou daquelas que choram até borrar todo o rímel e embaçar a paisagem de chuvas lacrimejantes. Mas meu choro limpa tudo. E na minha alma eu encontro uma força escondida que abraça minha alegria e seca meus olhos encharcados de marés revoltas. E é por sentir tantas vezes o gosto amargo das tempestades que consigo tomar prazeirosamente a calmaria com um pouco de gelo, rum e limão. Meu vulcão interior adormeceu de novo e eu não temo nenhum confronto com as adversidades constantes. As rosas que eu havia plantado em meu coração enfim floresceram. E a dor que esmagava meu peito eu traduzi em poesia. Nas minha horas não há espaço para o sofrimento em vão. Porque apesar de tudo eu fui feita para o amor. E para ser feliz. Descaradamente feliz."

Marisa Dionisio


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O que restou

"Foi depois do último suspiro 
arquejante de amor
que me dependurei 
no fiapo de esperança
que você me deixou.
Cultivei esse fio
com meu sol
minha chuva
e meus sonhos.
E semeei nele
doses diárias
de nossas lembranças.
Enfeitei essa plantação de desejos
com meus sorrisos
meus afagos
e meus anseios.
Me joguei destemida
na única prova concreta
da existência
daquele amor interrompido.
O gosto cortante do seu beijo
que ainda habita a minha boca
e o toque certeiro
de quem conhece
e domina
a minha geografia.
Do seu paradeiro
muito pouco eu sei.
Do seu destino
há muito me desapeguei.
De você,
carrego em mim
cravado fundo no meu coração,
suas feições perfeitas,
e as marcas profundas
de uma história
infelizmente
desfeita."

Marisa Dionisio




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>> segunda-feira, 13 de maio de 2013


"Não sei exatamente onde começou esse encadeamento de amores que se espalharam através dos meus passos pelo mundo. Sei que vejo corações por onde eu ando, ou para onde eu olho. E exatamente como aprendi com o enredado de relações em minha existência, vou semeando e colhendo essas porções de bonitezas que recebi ao longo da vida. Como um cordão umbilical que une a mãe ao filho no ventre, perpetuo esse laço inquebrável de amor, seguindo com meus filhos um caminho que comecei com meus pais. Para o amor não cabem denominações. Ele requer atitudes. Não sei se como mãe ou filha, irmã ou madrinha, tia ou amiga, o que eu sei é que a vida me permitiu desdobrar em aptidões amorosas. E me mostrou que a capacidade de amar é inesgotável. Ser mãe independe de laços sanguíneos, barrigas pontiagudas ou partos emocionantes. Ser mãe é a habilidade de expandir as fronteiras físicas e espirituais do amor. É a vocação para doação generosa e incondicional de nós mesmos. A atitude materna é literalmente o ato de plantar amor. Mãe é aconchego, colo e cafuné. Comidinha gostosa, carinho com os olhos, orgulho permanente e o abraço que não tem fim. Mãe é o nosso domingo feliz com gostinho de algodão doce no banco da praça. É quem carrega em si a grandeza infinita de amar. E de perto ou de longe, com um toque, um sopro, certo ou errado, faz tudo ficar ainda melhor."

Marisa Dionisio


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>> segunda-feira, 6 de maio de 2013


Gosto do que me causa estranhamento. Do que pincela meu olhar de curiosidade. Daquilo que me lança além da minha zona de conforto e que me faz caminhar e dar uma espiadela no que há por detrás da cortina. Gosto do que sugere, e não do que explicita. Gosto da beleza que se esconde brincalhona em um rosto que se destaca improvável em uma multidão de semelhanças entediantes.  Me derreto diante de olhos que não apenas me desejam, mas que perscrutam minha alma, investigam meu desejo e submetem meu ímpeto a um comando sutil. Gosto dos caminhos incógnitos dos labirintos que surgem das possibilidades. Sou deliciosamente movida pelos imprevistos admirados que se descortinam diariamente diante de minhas escolhas. O mundo fica infinitamente melhor quando viramos do avesso todo e qualquer padrão conhecido e confortável.  O que eu gosto mesmo é de assumir os riscos de viver  de acordo comigo mesma. 

Marisa Dionisio

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Em maio

>> sábado, 4 de maio de 2013


Os dias enfim
chegaram a maio
O sol, mais breve,
morre suave junto com a tarde.
E como amantes apaixonados
os dois encostam
simultaneamente,
cansados e sincronizados
na linha do horizonte que se finda.
A luz de maio é cheia,
intensa,
inunda as horas
e transborda,
farta,
no tempo.
Maio chega
como reinante absoluto
Vestido de branco
repleto e longo
como um manto
a encobrir dores
cravadas no peito.
Maios antigos
contam-me histórias passadas
de um calendário esquecido
na memória
de uma meninice recente.
Maio em mim
dói
aperta o peito
e carrega em si
pesares profundos
silêncios solenes
e um sentido simbólico
Maio me traz saudades
e desenha esperançoso
rostos embaçados
nas retinas cansadas
do meu coração.
E nesses dias menores
em que a tarde
também busca se esconder
no crepúsculo,
o céu reúne todas as estrelas possíveis
para enfeitar as sombras
dos sorrisos
que nos restaram.
E como uma orquestra afinada
embala melodicamente uma canção
Aquela canção preferida
a tradução melódica
da fortuna
e dos sonhos
dos maios de outrora.

Marisa Dionisio


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Domingando

>> quinta-feira, 18 de abril de 2013


"Estou domingando
em uma quinta-feira desavisada
do mês de abril.
Abril que abriu-se em leque
e abanou meu semblante
desse calor febril.
Musicalizo meu discurso
para não banalizar o poema
Meu espetáculo é assim:
o enredo é amor,
trilha sonora de Ravel
uma pitada de drama
com um pouco de alecrim.
Visto meu dia de feriado
e refresco minhas palavras
com significâncias sutis.
O lema hoje é outonar
Desfolhar árvores simbólicas
e paisagear responsabilidades
com as matizes deslumbradoras
dos encantos adormecidos.
Acordo meu mundo com um café
e me embaralho em alegrias,
sendo eu uma eterna projetista
de reflexos sorridentes.
E se ao menos um sorriso
eu conseguir provocar
e assim desanuviar
algum tipo de tensão,
já valeu então
minha ilusão domingueira
e meu devaneio
enveredado nas estações.
Elevo a fala ao status de oração,
coloco meu desejo entre aspas
e tracejo um agradecimento.
Traduzo assim o ensejo
da intenção:
destacar a beleza que há
na humildade
e na imperfeição."

♥ Marisa Dionisio ♥



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Vontade

>> quarta-feira, 17 de abril de 2013

"E aí bate aquela vontade
de uma estrada
um blues
um conhaque 
e um violão.
Muito vento
bocas e sorrisos
uma fogueira queimando
uma lua
e dois corações.
O peito apertado
com o desejo que chama
A música embalando
o ar impregnado
de pura paixão.
Uma vontade insana
de te desenhar com os olhos
colher os seus suspiros
e de amarrar seu calor
ao contorno do meu corpo.
E no céu aberto de estrelas
bordar encantos
e brilhos
no seu cobertor.
Decorar seus caminhos
e percorrer seus labirintos
Andar descalça no seu mato
me perder no seu destino
Poder voltar sempre
ao ponto de intersecção
entre eu e você,
a estrada,
as escolhas,
o meu sonho
e a razão."


Marisa Dionisio


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Palavra poeta

>> domingo, 14 de abril de 2013


A palavra na minha boca, pulsa
E expulsa, solta o verbo.
Livre ao vento,
a palavra encontra o lampejo
provoca um sorriso
e acende o desejo.
E eu, sempre atenta
sustento a verve
gracejo com a rima
e amiúde
conjugo o fulgor.
A poesia em mim
se tece ardente no corpo
na pele, no toque, no calor.
Reverencia a arte
traduz o espírito
e exulta o amor.
A palavra quando liberta
acorda meu poeta,
lapida o lirismo
que habita e faz latejar
a minha inspiração.
Minha palavra percorre
intrépida
todas as vias sanguíneas
da minha alma em êxtase
até o refúgio
do meu coração.
E surge assim,
viva e poderosa
em forma de prosa
das entranhas
das minhas mãos.

♥ Marisa Dionisio ♥

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Pássaros nos olhos

>> sábado, 6 de abril de 2013

"E há, entre os homens, aqueles que trazem o voo infinito dos pássaros no olhar. E nos emprestam com generosidade resquícios da grandeza que possuem apenas com o observar contínuo dos movimentos suaves das aves riscando o céu. São homens de alma leve esses aprendizes das peraltices passarinhas. E levam com eles um coração rochoso, firme e resoluto, como um pouso seguro da ave em seu ninho. Caminham com o pé no chão e os olhos voltados para o alto, experimentando o sagrado retorno ao começo de tudo. Sábios são esses homens, que testemunham a natureza para compreender o mundo. E afortunados eles são, ainda, por despenderem a preciosidade das suas horas à contemplação fortuita das espécies aladas. Há, entre os homens, aqueles que tem a habilidade de apreender a singularidade da beleza de um pássaro apenas com o olhar. E eternizam com reverência o milésimo de segundo desse encontro, quando a ave avista o homem, e olho no olho, permite majestosamente que ele transforme esse momento em arte."

♥ Marisa Dionisio ♥



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Céu particular

>> quinta-feira, 4 de abril de 2013


"Prendia as estrelas que restaram daquela noite bem rente aos nós dos meus dedos, numa tentativa metafórica de manter o que me restou dele bem enlaçado a mim. E assim como as estrelas eram apenas miragens iluminadas que povoavam o céu, sua lembrança existia somente como uma quimera a habitar minhas retinas. E a noite, eterna cúmplice dos amantes destemidos, compactuava solidária com a angústia do desejo que nos arremessava um de encontro ao outro e derramava outras estrelas no côncavo do meu paladar. O meu dia amanhecia solitário sem o sol do seu sorriso. Na parede, me fazendo companhia, apenas o desenho das sombras daquele dueto que inúmeras vezes protagonizamos com maestria. Afrodite, na platéia invisível dos entusiastas do nosso romance, nos pedia sempre bis. E quando eu buscava alcançar esse toque que fazia estremecer cada milímetro de todos os átomos do meu corpo, eu percebia que ele estava a apenas um esticar de braço do meu encalço. Porque tínhamos, em conluio, um céu personalizado a pender magnífico sobre nosso esconderijo aconchegante de amor. E foram essas estrelas que nos guiaram, auspiciosamente, ao nosso infinito particular de paixão sublime. Minhas estrelas. Dele. Nossas."

♥ Marisa Dionisio ♥



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Quatro mãos sonhadoras

>> terça-feira, 26 de março de 2013


"Todas as minhas crendices infantis se revelaram naquele momento ornado de simbologias da conivência velada do compartir de estórias. Na minhas mãos um livro e em seus olhos um oceano infinito de imaginações inventadas. Ali eu já não sabia se era eu a criança e ele o autor soberano da fala. Intercalávamos deslumbramentos. E numa reviravolta extraordinária do desenrolar desse evento, ele propôs entusiasmado a criação repartida de uma aventura a dois. Abriu confiante sua sacolinha encantada de ideias e me pediu algumas palavras e sentidos emprestados.
_ Dentro de mim eu posso tantas coisas mamãe, ele me confidenciou em sussurros, como que com medo que de suas mãozinhas fugissem alguma personagem ou pensamento que ele mesmo criara.
_ Eu tenho outros meninos guardados em mim. E tenho o poder de fazer existir aquilo que não existe, você me entende?, ele me perguntou com receio.
_ Claro meu filho, dentro de nós, somos todos infinitos, lhe respondi emocionada. 
Quis prender comigo aquilo que estávamos vivendo ali, a experiência singular de olhar meu pequeno tão impregnado de mim mesma. E a guardei com cuidado na minha memória alargada de amores maiores. 
_ Vamos brincar de desenhar palavras?, me convidou o menino falante que inventava cenários para suas fantasias. 
E enveredamos assim por esse caminho brincante de divertir os dias e colorir humores. E de uma forma quase que imperceptível assinamos a quatro mãos, entrelaçadas, a autoria do desfile de coisas que caíam da cabecinha pensante daquele menino que era tão somente a criança que fui na infância do meu passado. E ao ler o produto final do nosso desvario literário, ele gritou com euforia: _ Eu também sei fazer um livro mamãe! E saiu pulando, sendo exatamente o que ele deveria ser nesse período lúdico de sua vida, despreocupado e leve de certezas penetradas. 
Meu menino ficou grande dentro da sua morada criativa. Tinha se tornado oficialmente, um autêntico contador de histórias."

♥ Marisa Dionisio ♥


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>> segunda-feira, 25 de março de 2013


"As palavras constantemente encontram refúgio no espaço encantado da poesia. Se cansadas, há para elas o repouso no silêncio da interpretação solitária. Quando em júbilo, mesclam-se ao sentido melódico e ganham sonoridade com um sopro de arte. E há sempre um público ávido à espreita desse espetáculo de beleza que é o encontro da palavra com a significância do poeta. A poesia é a forma singela de emprestar sentimentos ao fato. É a doação de palavras e percepções imbuídas de afeto. Quando a poesia acontece, palavras desgovernadas perseguem, doídas ou festivas, o caminho da escrita. Elas desejam ser reveladas à absorção totalmente entregue da apreciação de quem as toca, com o olhar, com a escuta ou com a sensitividade da pele. É aí que a mágica poética se faz. E a poesia funde-se com o poeta, com o leitor e com a necessidade que cada um tem dela.”

♥ Marisa Dionisio ♥



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>> domingo, 24 de março de 2013


"Aquele passeio era na verdade uma forma de revisitar recantos há muito não habitados em mim. E a cada palavra proferida da minha boca, involuntária, era uma porta que se abria para a menina que mora no meu coração. Porta a porta ela foi se embrenhando destemida nas possibilidades que desabrochavam da minha alma. Ela tinha o semblante de uma criança maravilhada ao abrir uma caixinha de presentes. E foi assim, exultante, que ela descobriu o sonho que eu não havia sonhado. E o revelou a mim. Foi essa menina valente que me deu a mão para que eu embarcasse no barco que passava naquele pequeno espaço de tempo. Um barco que há muito havia partido levando com ele uma singular tripulante, a oportunidade. Embarquei nessa inesperada aventura de me redescobrir. Não fui sozinha. Navegam juntos eu, a menina e o meu sonho."


♥ Marisa Dionisio ♥





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>> quinta-feira, 21 de março de 2013


"O sol reverenciou minha manhã e me acordou em florescimento. Peço então, em silêncio, licença à vida. Que se faça maravilha no meu pensamento. E que após percorrer meu corpo se materialize no meu agir. Viabilizo aos meus olhos belezas cotidianas e presenteio meu momento com paisagens poéticas. Adoço meu café com um entusiasmo ingênuo na expectativa do começo de mais um dia. Minha rotina se renova mais uma vez com a perspectiva de uma página em branco. A mim cabe a grandeza de fazer dos pequenos detalhes que a força propulsora do universo me proporciona uma espetacular obra-prima. Uma possibilidade é uma forma de oração. Em agradecimento, meu discurso é sempre poesia." 

♥ Marisa Dionisio ♥



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>> quarta-feira, 20 de março de 2013


"Hoje não estou para ninguém. Preciso da convivência incauta com o meu reflexo que carrego por dentro. Fugi para o desafio de ficar sozinha com minhas verdades. E nessa viagem insólita me despedaço dolorosamente ao encontro dos vultos sombrios do autorretrato em mosaico que construí com minhas dores. Estou recolhida no meu casulo íntimo de indagações e reflexões. Meu oceano hoje é densamente sombrio. Me abrigo em mim mesma e piso nos cacos que sobraram da desconstrução do paradigma arcaico que trago embrulhado nas convicções que pesam no meu coração. Pétala por pétala vou desnudando conceitos sedimentados em meus vértices. Hoje minha alma quer asas. Hoje meu eu quer outra identidade. E liberto a ambos em um voo solitário. Olho para longe e o horizonte que eu vejo é estéril. Transbordo em lacunas. Me esvazio das minhas impressões para que eu possa plantar novos sentimentos. O que tenho agora é apenas um pouco do meu tudo." 

♥ Marisa Dionisio ♥



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"Quando te vejo as palavras jorram incessantemente da minha boca. E um discurso desconexo rompe do meu raciocínio que agora se encontra em transe. Você me invade. Meu eixo enlouquece e todos os meus ponteiros disparam desordenados buscando uma direção. Você chega totalizando o meu espaço e eu aqui, querendo alucinada o seu querer. O ar em meus pulmões procuram desesperados por onde sair e eu inútil e inerte acompanho o sobe e desce febril de sensações no meu estômago. Sei que esboço um sorriso e tento segurar essa avalanche que se avoluma em mim. Tudo em volta perde o foco e sou impelida involuntariamente à sua presença. Todo o meu cerne é magnetizado por esse seu ímã profundo e sou então arrebatada pela paixão em todas as dimensões. Me faço poesia para você se encantar. Você me lê nas entrelinhas e desvenda os mistérios das inquietações do meu espírito. Eu te sinto assim, por inteiro, com todos os sentidos de uma só vez. Você é um furacão em mim e nosso encontro é um choque térmico de desejos. Esmoreço diante do seu todo, sempre tão intenso, que me cerceia e me aprisiona com as celas do seu olhar. Seu hálito próximo ao meu rosto me acaricia. E eu que sempre racionalizo a vida sei que com você só posso sentir. Queria aprender a te recusar. Mas com você eu sou apenas entrega. Eu moro no exato momento em que você me toca . “

♥ Marisa Dionisio ♥



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>> terça-feira, 5 de março de 2013


"Eu sempre me impressiono com a quantidade de pessoas incríveis que passam pelo meu caminho. Interessantes, com histórias únicas, que de uma certa forma marcam para sempre o meu coração. Amigos em potencial. E sempre me angustia a tentativa frustante de agregar todos por quem me apaixono à minha vida e à minha rotina. Porque eu gosto muito de gente e gosto também de ligar uma pessoa à outra e formar um anel de alegria a minha volta. Sou uma cupida de amizades. O que invariavelmente dá certo. Porque quando tento reunir amores, o tiro sai pela culatra. Mas a vida tem um filtro próprio que nos permite ficar com quem realmente precisamos naquele determinado momento. O que afinal me faz perguntar porque não fico amiga daquela pessoa, que eu gosto tanto, que tenho tantas afinidades e que quando a encontro é uma alegria só? Talvez o tempo seja de fato curto para tanto encantamento. E seja somente no coração que podemos levar esse turbilhão de seres maravilhosos que a vida continuamente nos presenteia. Não sei. Sei que sou uma afortunada e não me canso de ser grata por isso. Tenho um lindo colar de mil voltas de amigos, que são contas preciosas da minha família agregada, e tenho ainda uma família de sangue que é definitivamente, o "créme de la créme" das minhas amizades. Isso não é apenas sorte, porque para relacionamentos de todas as espécies dar certo, é uma questão de conquista e manutenção também. Amigos e amantes nós conquistamos e preservamos. Família nós nascemos com ela, e precisamos incessantemente lapidar os laços. Isso demanda esforço e doação. De tempo, amor e atenção. E com frequência me esbarro com uma dessas raridades, por quem me encanto e chamo de amigos. Mesmo sabendo que não frequentaremos a casa um do outro, ou não iremos badalar juntos, ou mesmo que o tempo que temos em comum será pequeno. Mas isso basta. Porque os carregarei para sempre na minha bagagem de amor. E me lembrarei exatamente do que foi que me seduziu naquela pessoa, uma gargalhada, uma tristeza compartilhada, uma ideia uníssona, um olhar, ou um momento perfeito. E cada uma delas é uma pecinha essencial no mosaico do meu eu. E que combinadas constituem-se em mim. Sou extraordinariamente feita de pessoas. E já não me aflige a constatação de que não posso tê-las todas ao alcance do meu toque. Mas me alegra saber que as tenho integralmente à um sopro mágico da minha essência. Meu mundo de amigos é vasto e sem fronteiras."

♥ Marisa ♥



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